Peregrinação-Camino-Santiago-Compostela

A dimensão da peregrinação a Santiago de Compostela remete à deliciosa lenda que diz ter sido a Via Láctea formada pela poeira levantada pelos que para lá andam.
E os números impressionam: em 2010, foram 272.135 peregrinos e, no ano de 2012, 192.488 peregrinos também chegaram à Oficina del Peregrino de Santiago de Compostela.
São bilhões de estrelas formadas a partir do caminhar desses seres tão especiais, os peregrinos.

Fui contado entre aqueles que chegaram a Santiago de Compostela em 2012. Caminhei, assim, entre as estrelas que subiam na forma de poeira. Entre as que subiam e as que ainda flutuavam à beira do caminho. Estrelas, algumas brilhantes, outras nem tanto, mas todas dignas do olhar atencioso a capturar o que lhes era sua mais pura essência. Com motivações internas da alma, cumpri uma jornada que saiu da França e chegou ao “fim da terra”, na Espanha. Ao longo do Camino, fiz a colheita dos dias de caminhada e solidão.

MOTIVAÇÕES DA PEREGRINAÇÃO

Todas essas estrelas nascem das motivações que residem nas almas dos que decidem sair caminhando e cumprir a longa jornada da peregrinação rumo a Santiago de Compostela. Seriam elas, as motivações, semelhantes àquelas dos primeiros peregrinos do longínquo século IX, quando esse fluxo teve início?

É possível que alguns traços das convicções iniciais tenham permanecido, outras razões surgiram, mas o fato é que todas elas levam milhares de pessoas a saírem para enfrentar o mesmo desafio daqueles primeiros peregrinos. Talvez hoje sejam ressaltados motivos de outra ordem além dos religiosos, porém eles existem.

Então, seja lá que motivações impulsionam para o Caminho, que impressões colhem esses peregrinos?

Amizades e solidão; sons e silêncios; devaneios e introspecções; sabores e aromas; natureza, num tempo, bela e, no outro, árida; instantes de vazios interiores e outros de profunda fé… São incontáveis as percepções que dançam no pó que se levanta do Caminho e que sobe sob a forma de estrelas.

JORNADA

Minha peregrinação começou a ser inspirada anos antes, quando trilhava o Caminho da Fé, no Brasil. Agora, rumo à Santiago de Compostela, teve início em Lourdes, na França, numa cálida manhã do verão europeu, e terminou depois de andados, por 37 dias, os 979 quilômetros que levam dali até Santiago de Compostela.

A cada dia, uma nova paisagem a ser descoberta, e que se foi apresentando de forma diversa e multicolorida: altas montanhas rochosas, verdes milharais perfumados, vinhedos ou campos ceifados de uma cor palha a contrastar com o azul límpido do céu; outras vezes, horas e horas caminhando sobre terrenos pedregosos e sob sol escaldante.

Acordar e sair quando o dia ainda era escurinho assegurava a presença no espetáculo esplendoroso de cada nascer do sol. Era poder ver uma aurora mais multicolorida que a outra. Chegar à tardinha ao destino diário, então, era desfrutar de um novo albergue, banho, descanso merecido e boa comida. Comida, muitas das vezes, preparada de forma comunitária, com gente que eu nunca tinha visto até então. Num dia, uma cerveja para apaziguar o calor, noutro, um bom vinho, numa rotina que deixou saudades. Com diferentes pessoas ir dormir depois, nos dormitórios comunitários dos albergues, num sono conjunto, necessário a todos nós para restaurar as energias para o desafio do dia seguinte. Descansávamos o corpo, enquanto os sonhos se entrelaçavam com as lembranças do dia. E que lembranças! O visual que impregnara na mente, as cores, os tons da paisagem e os perfumes da natureza ficavam gravados na memória e renasciam nos sonhos de cada um. Também nos sonhos vinham as lembranças das emoções, decorrentes das revisões pessoais que o caminhar solitário forçosamente faz acontecer.

Trilhar por caminhos seculares é poder apreciar pontes históricas que remanescem, igrejas românicas, arquitetura e estilos diversos a mostrarem a marca da criatividade humana ao longo do tempo.

Caminhar por lugares desconhecidos, ora vazios, ora com gente do mundo todo, é a certeza da construção de amizades, algumas fugazes, outras duradouras. São tantas personalidades e tantas razões pessoais para estar no Caminho…! Uma mistura de raças, crenças e objetivos de vida.

PEREGRINOS

Ao cruzar com um viajante pela primeira vez, apenas um leve aceno. Se nos encontrávamos uma segunda vez, cumprimentávamo-nos como velhos amigos, nós, os dois peregrinos que antes caminhávamos solitários.

Nos trechos em que eu andava junto com outros, histórias iam surgindo, buscas pessoais, sonhos, tristezas e alegrias sendo revelados. Éramos todos caminhantes em peregrinação, sentíamo-nos membros de um grupo com os mesmos objetivos e, então, compartilhávamos as razões pelas quais cada um estava naquela missão – quando se sabia as razões.

A cada dia, uma amizade construída, um esforço físico a ser superado, uma oportunidade de conhecer o limite da própria tenacidade para alcançar a meta proposta: chegar a Santiago.

Objetivo que fora fixado quando? E de que forma? Talvez ao ler um texto como este, que lá no passado me despertou um desejo. Vontade que, ao primeiro instante, parecia se tratar de projeto pessoal impossível, mas que agora, em pleno caminho, vai mostrando que valeu a pena perseverar na ideia.

PEREGRINAÇÃO, DESAPEGO E COMPAIXÃO

Perseverar e seguir adiante por esse longo caminho de peregrinação, carregando apenas o indispensável para a sobrevivência física e deixando para trás o que não mais valia para a alma, para o espírito, enfim, exercer o desapego em sua plenitude.

Esvaziando-me para, no vazio, encontrar minha voz interior verdadeira e as reminiscências do sopro divino que nos fez e nos faz seres humanos e buscando as raízes da fé e da crença de que vale a pena viver e despojar-se, abria-me, sem medo para uma vida nova.

Desfrutei dias diferentes, vividos de uma forma nunca antes experimentada, sentindo continuamente o peso de meus próprios pertences e da comida guardados na mochila às costas, lavando a roupa diária e provendo água para o dia seguinte – nem tão pouca água, porque poderia me faltar, nem muita, porque não suportaria o peso.

Levar e viver apenas com o necessário, o indispensável; pautar-me pelo equilíbrio em tudo, no tamanho da bagagem, no comer e no beber; e estar preparado para as dezenas de quilômetros a serem andados no dia seguinte e sempre com o espírito alerta, porque, se estivesse bem, poderia auxiliar outro peregrino que por acaso precisasse de minha ajuda. Quantos peregrinos encontrei desolados ao longo do caminho porque não conseguiam continuar a andar por causa das bolhas que lhes infestavam os pés…! Outros, porque uma inflamação, a tendinite decorrente do esforço continuado, simplesmente os enchia de dor e os impedia de caminhar. Ajudava-os num dia e, no seguinte, seria ajudado, talvez por outros, desconhecidos.

Essa a lei do caminho, que também é a lei da vida, mas que eu, por muitas vezes, esquecia-me dela por viver numa cidade grande como São Paulo, com a individualidade fria que varre suas ruas. E é essa frieza que faz com que se vá sufocando a prática da compaixão, do procurar conhecer no olhar o outro sua situação, do ajudar sem outra intenção que não aquela de amparar.

COLHEITA DA PEREGRINAÇÃO

Não vislumbrei atalhos mágicos no Caminho, tampouco inspirações transcendentais. Colhi, sim, percepções que a alma foi delicadamente identificando, nascidas principalmente da observação das coisas simples do dia a dia de peregrinação. Tal colheita possível porque o ato de caminhar sozinho e por longos dias permitiu que eu me aproximasse de quem estava mais distante: de mim mesmo. O silêncio, grande companheiro cotidiano, levou-me a consultar com mais frequência minha memória, a reconstituir como trechos de filmes momentos importantes de minha vida e a ouvir com mais clareza minha consciência.

O objetivo não foi apresentar, nas memórias que escrevi desses dias, um roteiro técnico, embora eu compartilhe tudo o que fiz para me preparar, tanto física como espiritualmente. Também escrevi alguns conselhos práticos sobre roupas, calçados, equipamentos e outros itens que podem ser úteis àqueles que planejam empreender essa jornada.

O que registrei em meu diário, em verdade, são pequenos detalhes de cada dia, particularidades do impacto da paisagem no ânimo diário, do diálogo interno e das preces que ressoavam a alma, são observações e impressões do cotidiano, anotações daquilo que se incrustava na memória e de seus reflexos na alma, decorrentes do encontro com as pessoas do lugar e com os peregrinos.

Tantas vidas circulando, tantas histórias pessoais captadas…! Verdadeiras estrelas por entre as quais caminhei, percepções que colhi e que partilho neste meu livro. Lendo-o, você será meu companheiro(a) de peregrinação, porque juntos trilharemos cada trecho dessa experiência única que é o Caminho de Santiago de Compostela, o caminho de nossas vidas.

O diário foi escrito no calor do final de cada jornada, como forma de manter a essência do que foi observado, vivido e sentido naquele dia. Muitos de seus trechos foram mesmo elaborados mentalmente, enquanto o andar se sucedia no silêncio da estrada, quando apenas o barulho dos próprios passos era ouvido, o mesmo silêncio que,
em outros trechos do caminho, levou-me a chegar mais perto da presença do divino, que parecia então andar comigo. Era como sentir Deus muito pertinho, seja num sussurro interior, seja num aroma delicado que vinha da mata, embalado pela brisa, a mesma brisa que balançava de mansinho a copa das árvores…

Que esses momentos vividos e relatados possam inspirar os caminhos desejados por sua alma, leitor. E que você tenha a oportunidade de, também, caminhar entre estrelas.

Tenha acesso ao diário completo dessa peregrinação, num e-book ilustrado contendo o dia-a-dia do Camino. Conheça também todos os cuidados para a preparação de uma jornada no Camino:

  1. Preparação Física
  2. Preparação para o caminho interior

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